quinta-feira, 16 de abril de 2009

Rock sem poetas

Num blog de poesia que escapa para as letras nunca foi minha intenção criar polémica ou sequer ventilar um arzinho que seja que nos lembre esse vento malfazejo que sopra na maioria dos blogs e que quase, numa descrição do seu “adn” seria uma característica fundamentalmente apontada. O áspero guardo-o para outro blog que tenho (Spectator) e que sendo de opinião, presta-se mais a essas ventanias.

Mas não posso deixar de manifestar a minha frustração pela ausência de cinco de um total de oito pessoas na mesa redonda de Rock e Literatura que tive o prazer de participar no passado dia 7/7 pelas 18.00 na Faculdade de Letras de Lisboa. Segundo a organização todos tiveram contratempos pessoais e profissionais (o que compreendo e quero respeitar o mais que possa) sabendo, embora, que, pessoalmente, já fui a muita coisa adoentado (escrevo, carregado de cêgripes e hextrills, a partir de um Starbucks do aeroporto de Bruxelas), e que, essa semana, e esse dia em particular, vim de entrevistas com o projecto Hoje (Amália Hoje) e ensaios com os Moonspell, de onde vim directamente para a Faculdade, chegando a horas e apenas contactando com esse êxodo in loco, perto da hora do início do mesmo.

Restou uma hora de conversa, minha, e do JP Simões (e da professora/moderadora, que confesso, esqueci o nome), que espero tenha sido válida para as pessoas que lá foram, provavelmente esperando mais “quórum”. Não querendo ser, de modo algum, injusto para as pessoas que tiveram de faltar, lamento que assim tenha sido e que nós, os “das letras”, não encarem com a seriedade que devemos a nossa própria credibilidade enquanto poetas eléctricos. De realçar que nenhuma justificação ou pedido de desculpas foi comunicado, pelo menos enquanto lá estive, às pessoas na audiência.

Em jeito de fraco consolo fica o texto da minha apresentação com a menor edição possível (ponham-lhe uma nódoas em cima):

Poéticas do Rock

O respeito da normalidade

É fundamentalmente estranho estar aqui sentado na faculdade onde me angustiei no e pelo curso inacabado de filosofia, perdido nos corredores da reprografia azul; confraternizando pelo melhor spot na Biblioteca do Departamento (Matos Romão) onde eu lembrava alguém à Sra. que tomava conta, alguém das novelas; ou partilhando um chapéu de chuva com a miúda petite mas gira à brava da turma X, em andamento para os pavilhões onde reinava a aula de Epistemologia das Ciências Sociais (ave VS Marques!), por aí , só algumas memórias instantâneas de um ex- FLUL. Ia dizendo, é fundamentalmente estranho estar aqui sentado numa mesa redonda de faculdade, com tantos ilustres da palavra e da performance a partir da mesma, para justificar, debater, ou, constatar uma evidência que por muito repetida ao longo destes anos todos de poética Rock ainda encontra dificuldades de absorção académica e mediática e, por vezes, massiva e também diferenciada, por razões que me escapam tão evidentemente como o facto de isto ser assim e não de outra maneira.

As letras das músicas, das boas, são poesia pura. Ou porque não, na era dos compartimentos, um segmento novo da poesia com vida e luz e público próprio. Esta premissa é o mais fácil. Todos aqui o sabemos e nisso acreditamos. Difícil é ir a algum lado e fazer com que tal seja encarado com a normalidade que lhe conferiria a dignidade e o respeito devidos.

Cheguem ao pé de alguém, qualquer alguém, até um amante de música e digam-lhe: olha aqui esta poesia do Adolfo. Cheguem ao pé de alguém e digam também: olha aqui este poema do Herberto Helder. Até aqui nesta sala a reacção é imediata sobre quem é o poeta, não digam que não. É o peso da tradição, da comunicação, dos livros, da escolha de vida, dos palcos, da agitação, dos sítios que a alma frequenta, do recato até por vezes snob dos poetas só poetas.
É por isso que de alguma forma luto. Não que nos vejam como um fenómeno estranho confinado a colóquios mas que nos vejam como poetas normais como os outros que trazem as palavras para os palcos e as consagram à musicalidade não imaginada, porque real nos instrumentos e na voz, e, muitas vezes, até mais completa.


As letras são ainda o referencial da linguagem, do código/alfabeto que identificamos e perante a música apresentam no leitor/ouvinte uma sensação diferente, menos abstracta, mais de mensagem (desenvolver)

Posto isto o meu estilo:

Autores fetiche do Metal: Tolkien, Poe, Baudelaire, Lovecraft, Aleister Crowley, Pessoa, La Vey, a esquadra cientifica Matheson, K Dick, Bradbury, outros Robert E.Howard; Blake, Wilde. A lista é inesgotável e com as suas glórias ou abusos faz do Metal um dos géneros mais literários que conheço.

Onde encontrá-los: lovecraft- metallica, the thing that should not be; poe, annihilator-ligeia, maiden-murders in the rue morgue; bradbury- iced earth, something wicked this way comes; blake: Ulver, the marriage of heaven and hell; pessoa/campos: moonspell opium; crowley- fields of the nephilim; tolkien em todas as ingenuidades; baudelaire, celtic frost superior, tristesses de la lune. Superior 2 ryhme of the ancient mariner- coldridge.

Problemas: alguns decalques menos felizes, algum arranhar de superfície mas residual perante as obras primas da fusão rock, metal, gótico, com as letras. A tal inexistência de normalidade. Então o Fernando escreve poesia? Para os fãs de moonspell n é? Bem também… ou então logo doutor nas apresentações nas bibliotecas do país. Algum relacionamento do rock com o entretainment e não com a cultura.

Conclusão:

- jim morrison o melhor escritor de poemas de rock de sempre dizia certeiramente “quero que as minhas letras sejam poesia, que sejam vistas para além da música, que tenham vida própria”
Quem as ler sem ouvir doors que diga o contrário. Agora é fazer com que isto não seja de todo especial, mas simples e adequadamente vulgar.


Nick cave the secret of a love song (explorar)

Vou ler o Oficio Cantante, ainda confio nas palavras.

7 comentários:

kitty-san disse...

Com dois tão eloquentes poetas, a meu ver, não fez falta mais ninguem na mesa redonda.

starfish disse...

Olá!

Imagino que deve ter sido estranho para ti, voltar a pôr os pés num sítio que provavelmente te marcou muito ;)
Escrever uma boa letra para uma música, não é tarefa fácil. Mas, confesso que o mundo das palavras sempre me fascinou. Porque é com elas que se formam grandes obras, grandes ideias.

P.S- Sei que os Moonspell andam em digressão, espero que os concertos esteja tudo a correr bem :)
beijinhos

Madalen@ disse...

Leio-te e gosto... não persigo mas sigo ao de leve as letras que decalcas na musica e, bolas... claro que é poesia!

Anônimo disse...

Qd vi o tweet acerca das Poéticas do Rock tive imensa pena de viver longe de Lisboa! Faria certamente parte da audiência. Por aqui não se debatem temas tão interessantes!!!
As boas letras são poemas, sempre foram, e é por isso que amo o metal, tem "alma"! Os outros géneros estão mais distantes do mundo da literatura! Ammally

Anônimo disse...

Lembra-te do Freddy Mercury que agora também é estudado da Academia. A Humanidade tem destas coisas humanas... Li os teus livros (tal como te disse no outro dia, vou tentar encontrar-te em alguma concerto, por aí, e pedir que mos assines) e as poesias são belíssimas! Como sabes, até há bem pouco tempo não te conhecia nem à tua música, mas desde há, sensivelmente, um mês a esta parte tenho de assumir que a minha vida mudou e isso deve-se a ti e ao teu trabalho. Pesquisei. Li e tentei interpretar algumas letras das tuas músicas e... gostei. Acertas no lugar certo das coisas, de alguns sentimentos. Uma visão própria mas certeira! Dizes no álbum dos Hoje (aquele que tem os textos de apresentação) que a música pode ser um meio de aproximanção, ou algo semelhante, e dizes 'aproximem-se!' e, de facto, isso está a ser conseguido. Mas, como tão bem conheces, estas coisas tardam a chegar à Academia, de onde os saberes que entram só são reconhecidos depois de serem tornados seus e só depois vão dali para outro qualquer lado.
Não estudei/estudo na UL, mas na UP, que tem uma lógica de estatuto semelhante, sim, porque se trata de estatuto não só dos saberes como de instituições do saber, do conhecimento, nesta guerrinha constante de quem sabe mais e melhor, de quem pode ou não pode ascender a determinado lugar a determinado patamar de saber - que é um patamar de poder.
Isto levar-nos-ia a uma longa, mas deliciosa conversa que não pode ser feita assim, nem por estes meios. [Sim, porque quer queiramos quer não, a sensura sempre existiu, existe e existirá, quaisquer que sejam as consequências.]
Um forte abraço da tua recente amiga, RB.

THis Me ... disse...

até aqui uns tempos: o que eu acreditava era o que as palavras me diziam. agora, escrevê-las torna-se num momento perdido, quando elas já não nascem da mesma maneira. And then... a minha avó volta a crescer em poesia e as minhas veias voltam a respirar poesia.

BeatrizTeixeira disse...

um aparte:
diálogo de vultos...
ando á uma eternidade a tentar encontrar este livro, é impressionante, não o encontro em nenhuma das papelarias a que vou, já procurei na fnac, worten...enfim.
e uma ajuda daí? afinal onde está o livro á venda?