quinta-feira, 4 de março de 2010

Purgatorial

Na paz
assiste ao corpo o direito
de rejeitar o mundo

Os olhos para si
reclamam a ofensa corpo a corpo
às cores
servindo-se do desprezo
De quem já tudo viu
Acontecer

Ressacar
É acordar envolto em estranhezas,
é estar preso por fios
Que nunca existiram
E que
Como tal
Não podemos romper

é jazer nu
E esgotado
e fazer disso os meus dias

Mais do que lutar
Aceito as condições da guerra
Dentro das quatro paredes
Como se aceita o ar,
Aceito o protocolo da batalha dentro da caixa de osso
Como se aceita a luz
Que ilumina a sombra.

Ergo a cabeça sim
Mas apenas para sentir
A lâmina fria
Que me beija a nuca

13 comentários:

Anônimo disse...

Tomara poder aliviar teu sofrimento, trazer-te à luz sem ofuscar-te, retirar-te da noite, oferecendo-te as estrelas, que te adornam dos pés à cabeça, desviar-te a boca de todo o fel da terra, dar-te a provar o mel mais fino, que é da abelhas, aquecido nos dias solarengos e felizes, onde a beleza é genuína e perene, e a dor, toda ela suportável. Prometo-te que a existência poderá ser assim, daqui para a frente, para sempre.

Se aceitas, nada te imponho, nada te exigo, por nada te farei pagar aquilo que tomares.

Se aceitares, será tu por inteiro.

Daisy Libório disse...

Na aceitação de tudo
nos impusemos
um purgatório de coisas mundanas
tediosamente deliberado
sob a ausência tépida
daquilo que em algum momento
renegamos...

*Palavras sentidas...

thepoisonousi@thehospital.com disse...

Gostei sobretudo da última estrofe:

"Ergo a cabeça sim
Mas apenas para sentir
A lâmina fria
Que me beija a nuca".

Conheço bem a sensação.



Abraço.

Anônimo disse...

li o seu artigo na «VISÃO» fiquei completamente rendida, mas que bebé tao lindo, e aquele Pierrot então???

mas o importante aqui e dizer o que já deve estar mais que farto de ouvir, a sua poesia é realmente incrivel, unica mesmo...

adorei, como sempre...

Maria disse...

QUERIA MUITO TER O REGOZIJO DE UM DIA ESCUTAR AS SUAS PALAVRAS A CONTEMPLAR OS SEUS OLHOS

Maria disse...

Enigmático...

jonathan disse...

"Ergo a cabeça sim
Mas apenas para sentir
A lâmina fria
Que me beija a nuca"

Todo o poema, mas principalmente a conclusão dele, me lembra e faz sobressair o que estou a sentir agora.
É como se o orgulho nos levasse apenas para um sítio, frio e obscuro, até sangrento face à referência à Lâmina, querem nos mutilar o corpo, torturar a alma, mas a verdade é que na nossa cabeça, em nós, cada palavra escrita, falada, está a sair espontaneamente suicida, melancólica, fria, morta.

Jéssica A. disse...

Da tua mão sai o mesmo líquido que pulsa em minhas veias.

Eu continuo lendo o que escreve, e continuo com essa ânsia de sempre ler. Que permaneça assim!


Beijos.

Christine disse...

The fallen angel beseeching deliverance from his eternal sacrifice.
Beautiful words in a time of need.
Obrigada
***Christine

Diogo Oliveira disse...

Mais um excelente poema Fernando.

A profundidade das tuas palavras, e a sinceridade que mostras naquilo que escreves, é algo que me fascina.

Escrevo também poesia quando o tempo e a imaginação me permitem, e deixa-me dizer-te que és uma das minhas referências e até inspirações.

Gostava de um dia, caso fosse possível, entrar em contacto contigo por e-mail, para que te pudesse abordar relativamente a uns assuntos que gostaria de falar contigo.

Se leres este comentário e de alguma forma conseguires entrar em contacto comigo, ficar-te-ia bastante grato.

Continuação de boa escrita e do excelente trabalho dos Moonspell.

Abraço,
Diogo Oliveira.

Anônimo disse...

Meu Poeta, o purgatório é apenas um passo antes da paz. Para algumas pessoas, a paz não fica no paraíso.

O Anjo, na necessidade desta paz interna, partiu
para fazer um novo, do Seu proprio, onde sonhar não é proibido. Sim, Ele caiu, coroado da dor e da escuridão, mas não lamenta.
Porque, caído profundamente, Ele é capaz de olhar para cima e ver as estrelas do céu terrestre, que nunca existirão no paraíso. Através do Seu purgatório interno
Ele conseguiu.

Toda a gente não ousa fazer o mesmo.
Mas,acho que és um daqueles poucos sonhadores.
Acredito em ti, faz o mesmo!
Continua a levantar a cabeça para sentir um dia em breve
que quem beija a tua nuca não é mais a lâmina.. E depois as estrelas!

Anônimo disse...

Fernando os meus comentários estão a tornar-se algo monotono tenho de admitir, mas não me canço de lhe dizer que a sua escrita é maravilhosa, que as suas frases nós tocam, cada um em particular pelas experiencias de vida.

"Mais do que lutar
Aceito as condições da guerra
Dentro das quatro paredes
Como se aceita o ar,
Aceito o protocolo da batalha dentro da caixa de osso
Como se aceita a luz
Que ilumina a sombra"

Não imagina como o compreendo com estas palavras tenho várias alturas em que me sinto assim, e é desnecessário mas vou repetir a sua escrita arrepia-me, não há paralavras, é mágica.
Continue a priviligiar-nos com a sua escrita.
Beijinhos Raquel Valente "a sua vizinha"

Fabiano disse...

Suas palavras são reflexivas e interessantes!

Me identifico com elas. Tenho algo aqui dentro que me faz ser extremamente pessimista quanto ao mundo em que vivemos, e vez por outra gosto de escrever algo parecido com o que escreveste.

Sempre que tenho oportunidade, passo por aqui para conferir suas sábias palavras.