sábado, 14 de fevereiro de 2009

Abandonado jardim

Criei este blog em 2007 mas, por razões diversas - raiando desde a falta de tempo e organzização até ao excesso ou absoluto defeito de assunto/poema, depressa o abandonei. Continuei, no entanto, a nutrir por ele aquela espécie de carinho que se tem pelos jardins meio perdidos ou também eles abandonados, que são tristes mas tão bonitos que doem e que apetece visitar para nos perdermos na saudável melancolia que cresce nas ervas desalinhadas. Estive a semana passada no Jardim Botânico de Lisboa e por lá pensei nisto.

Chegado a casa, pausa forçada para recuperar da excisão de um lipoma, apeteceu-me repovoar este jardim com palavras e o tornar um pouco mais vivo, no sentido de activo, mas sem perder o tino melancólico que é a essência e a chave do cofre.

Quero pedir desculpas a todos que aqui em vão vieram e em vão seguiram, prometendo, para já, contactar quem comentou neste blog e fazer um bocadinho de divulgação, de modo a trocarmos palavras e sentimentos perante as mesmas.

Sendo quase impossível escolher um disco ou livro preferido, tenho a sorte de saber apontar com exactidão quem é o meu poeta preferido e maior influência quando me sento a escrever poemas meus: o seu nome é Justo Jorge Padrón, nasceu nas Canárias em 1943 e publicou pela primeira vez em 1969. A sua poesia é, para mim, perfeita no timbre, na cor, no tema, na alma e no corpo. Não tem um site oficial mas este http://amediavoz.com/padron.htm faz-lhe as honras possíveis. Inspiro-me muito nas suas palavras e nos caminhos que estas tomam e aquando da apresentação do meu segundo livro As Feridas Essenciais utilizava ( e não era um recurso de à falta de melhor) o seguinte excerto de um poema seu sobre o poema/acto:

Mais que um filho

Mais que um filho, é um escravo, o poema.
É parte dos teus sonhos indomáveis,
Um farrapo da tua alma sucessiva,
Um monte de palavras que salva a tua memória
Dos momentos plenos do deserto.

Por vezes é o eco incompreendido
Da tua própria consciência ou de outro sangue
Que em ti palpita sem que tu o saibas.

(…)

O poema é um corpo abstracto, talvez um ser
Misterioso de que és o seu deus único.
Podes embelezá-lo ou deformá-lo
Com a perversidade de um tortuoso castigo
Até torná-lo céptico, canalha ou taciturno,
Perante a lucidez dura de teus olhos.

(…)

há poemas obscuros e assassinos
que nos espiam com a sua adaga levantada
há outros juvenis, tersos, apaixonados,
cuja directa luz desnuda o fogo.
Também os há ociosos, brigões, lascivos,
Curiosos ou ignorantes que perguntam
Sem que jamais possamos responder-lhes.

Um poema é, enfim, um látego desditoso
Uma alma solitária trespassada de repente
Pela densa dor que o convoca

JJ Padrón

A Teorema publica Padrón em Portugal, a tradução é superior, se bem que o original castelhano seja límpido como poucos e também as traduções Inglesas são de primeira àgua. Leiam Padrón e mudem a vossa vida.

Num registo mais mundano espero que este blog ganhe as asas de uma audiência e que se legitime, em beleza, a comunicação pretendida. Todos os meus livros, inclusive o último Diálogo de Vultos foram reeditados pelas Quasi e podem encontrá-los (andaram desparecidos das lojas, bem sei...) em http://www.quasi.com.pt/ Também lhes podem escrever e indagar da livraria mais próxima que os tenha para venda.

Até breve para mais "dor convocada."

11 comentários:

Diogo Almeida disse...

Antes de mais as melhoras :)

Descobri este 'jardim' não há muito tempo, e rapidamente o coloquei no meu leitor de feeds, ansiosamente á espera de novos posts.
Espero que no meio do vosso árduo trabalho, consigas visitar este jardim mais vezes :)

1 admirador do teu/vosso excelente trabalho :)

Fátima Inácio Gomes disse...

Dou-te as boas-vindas ao mundo, caríssimo, para tomares em colheradas cuidadosas, pois nisto de coisas mundanas convém não ser voraz... não há pior digestão que a da carne.

Recomendas-nos o teu eterno Pádron, eu recomendo-te (muito vivamente, vai por mim) um conhecido meu: http://abnoxio.weblog.com.pt/arquivo/improvisos_2009/index0
(deixo-te o infante 2009, mas tens arquivos de outros anos... nem eu os li ainda, tenho um pedaço de mundo atravessado na glote, não tenho conseguido dar conta do recado) - garanto-te que encontrarás coisas belíssimas, a língua no seu melhor. É mais um apaixonado...

A disse...

Lindíssimo.
Quem me deu a conhecer Padròn foi uma grande amiga minha, a melhor, aliás, que é profusa admiradora do teu trabalho.

Acho mesmo que até chorei quando li o poema que ela me enviou.

E é por coisas destas, pela partilha destes pequenos rasgos de luz, que vale a pena cuidar de certos jardins.

Obrigada, F.

Andreia Ferreira disse...

Caro Fernando,
Antes demais não creio que tenhas de pedir desculpas por não poderes vistar o teu "jardim" mais vezes. É de conhecimento geral a vida atarefada e o muito trabalho que te envolve e no quel te envolves. Todos sabem tambem que todo esse trabalho e esforço tem dado frutos fantásticos e, olhando as coisas por esse prisma, a tua ausênscia prolongada está automaticamente perdoada =)
Já te ouvi por variadas vezes mencionares Padrón e o quanto ele te inspira e realmente, do pouco que li até agora, posso dizer que tem um estilo mais que espectacular, único mesmo. Com certeza que assim que puder procurarei conhecer melhor esse teu tão adorado escritor.
Ainda bem que ja foram reeditados os teus livros porque de facto andavam desparecidos. Andei à procura do "Diálogo de Vultos" por toda a parte mas até agora não o tinha encontrado. Finalmente!

Muito obrigada por toda a inspirção e capacidade para voar que me transmites, tanto como escritor de poesia como de letrista nos grandes Moonspell, sem esquecer a grande figura que representas enquanto pessoa, enquanto Ser Humano.

Até dia 18 de Março.

Beijo

Andreia

Sininho disse...

Acabei de cair de pára-quedas e confesso não estar nada arrependida de não ter controlado a aterragem!

É sempre surpreendente conhecer a outra metade de uma cara que nos habituamos apenas a ver nos media!

E desculpe-me a sinceridade, quando digo que não conheço a sua obra literária!mas as falhas culturais emendam-se!

De qualquer das formas, é sempre agradável recolher uma flor deste jardim, que espero que seja embevecido de vez a vez, quando o tempo assim o permitir =D

Foi uma maravilhosa descoberta [e coincidência] que me surgiu agora nas mãos!
Encantada por encontrá-lo!

Se me permite,
Um beijo eterno*

susanna disse...

Belíssimo caleidoscópio !!! Sempre adorei o teu trabalho Fernando, és um verdadeiro Midas das palavras!
Espero ansiosamente por novos posts ;)

VR disse...

Olá, Fernando.

Quão assustador foi ouvir a palavra tumor, logo amenizada pelo adjectivo benigno?... Continuação de rápidas melhoras.

Fico contente que tenhas ressuscitado os teus blogs; por eles continuarei a navegar, usufruindo do que nos sugeres ou relembras.

Um abraço,

VR.

Post scriptum - Tem um espectacular 2009.

Anônimo disse...

Á cerca de 15 a 20 anos atrás também andei na vossa onda mas a vida obrigou-me a vestir e a ser de outra forma não deixei de vibrar quando oiço uma balada dos Metalica. Á dois anos começei a ouvir as músicas dos moonspel o que me fez acordar em mim o que eu tinha deixado adormecer diga-se que eu também nasci em 1974. Mais interessada em aprofundar os meus conhecimentos sobre a vossa banda começei a ler o que escrevias (acho que te posso tratar por tu poís somos da mesma idade)a leitura que fiz aliada a uma sensibilidade á flor da pele devido à perda da minha irmã ajudou-me a crescer espiritualmente. A nível espiritual e do que tenho estudado desde então basta-me olhar para as tuas fotos e vejo que tens algo muito especial não é por acaso que escreves com tamanha qualidade. Bom tinha aqui muito que escrever, mas tenho que ficar por aqui.

Até um dia

Mr. Cortex disse...

Parabéns pelo blog! Seria um grande presente uma visita ao Brasil, como escritor ou como músico!

Lady Filth {Incubbus} disse...

Fiquei muito feliz em achar seu blog e poder ter mais acessível suas poesias. também escrevo nestas semelhantes linhas de pensamento, aliás, acho poesia uma arte muito sublime. Á espera de novos posts. Abraço, Poliana, uma adiradora de seu trabalho tanto como autor como músico. (brasileira)

Carmen Regina Dias disse...

Sou fã incondicional dos escritos desse grande poeta Fernando Ribeiro.
Parecemos díspares, e talvez nisso
consista o primeiro motivo da minha admiração.
Os demais motivos, todos eles,
são suas floresespinhosvida
em versos tornados.