sexta-feira, 31 de julho de 2009

Nós monstros

Passemos à cave. É lá onde vivo, donde venho todas as manhãs e para onde regresso todas as noites. Aqui é a sala onde me divirto, aqui tomo banhos longos, ali, tens de ver aquilo, é o meu recanto preferido, onde medito nos meus assuntos, sempre que posso.

Um cheiro de comida entra pelas paredes, um fumo de dor de cabeça está cativo num quarto, as tuas palavras, monstro, são as mesmas de sempre. O que te vale é que estamos numa cave e não tenho ainda para onde fugir. Quando isso acontecer deixarei tudo para trás e agirei como se não te conhecesse porque afinal é verdade, quem és tu? Porque queres saber os nossos nomes? Porque é que as coisas nunca são boas o suficiente para ti? Para que me desperdiço na tua presença?

Não olharei para trás nem fugirei de ti, eu próprio sou suficiente para me amaldiçoar para sempre.





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PS:





Estarei hoje a partir das 20.30 a assinar autógrafos na Bertrand das Caldas da Rainha, numa iniciativa integrada na Feira do Livro local. Todos os meus livros estarão disponíveis. Apareçam se puderem. Será um prazer.

20 comentários:

Miguel disse...

Homo homini lupus?

Cristiana Marques disse...

O mais assustador da solidão é a nossa própria presença... assume uma dimensão demoníaca, quase sufocante... No entanto não tenho medo de mim, apenas desejo sentir, quando a idade já não deixar margem de vida, que eu sempre fui suficiente para mim... E isso sim é assustador, tira o sentido a quem connosco desejou criar um "nós"!
Fazes-me pensar... sonhar... sempre...

M. disse...

Gostei muito deste texto. Aliás, também vivo numa cave, embora se fixe num 4º andar. Também não tenho para onde fugir.

starfish disse...

Viver enclausurado sem ter uma saída por onde fugir... por vezes, naqueles momentos menos bons, nós chegamos a ser o nosso pior inimigo.
Mas eu gosto de pensar que, no fim, tudo passa. Ou pelo menos, quase tudo :)

Quanto à feira do livro, ainda há uns meses percorri 4 livrarias à procura dos teus livros. Disseram-me que não tinham. Fui à fnac à procura do "Diálogo de vultos" e disseram-me que estava esgotado... na editora. Bom, só resta esperar :)

Beijinhos

thepoisonousi@thehospital.coma disse...

Viva Fernando!

Dediquei-vos um poema (a ti, ao Ricardo, ao Mike e ao Pedro) - gostava que o pudessem ler. O meu covil é o da Serpente. Ide lá, se possível.

Ave Fortuna para os Moonspell!

Respeitosamente,
Nodula de Nomada


P. S. Sou leitor da Loud. (Tenho-as todas, quase; guardo-as, pois, quasi religiosamente.) :) Costumo ler o cantinho do Spectator - gosto muito da tua escrita e identifico-me com a maior parte das tuas opiniões e gostos. Continua o bom trabalho. E, nunca é demais, viva a irmandade MOONSPELL!

Anônimo disse...

Que adianta dizer se moro na cave ou no último andar do arranha céus, se no tecto do meu quarto tenho estrelas que duram toda a noite. Fui eu que as colei, comprei-as na loja do urso. Também há planetas e cometas!

Quando estou cansada de mim, não me olho ao espelho. E mais nada! Deixo o tempo passar e fico a olhar as estrelas...

Fabiano disse...

A solidão às vezes machuca e às vezes é necessária, para que possamos refletir sobre tudo o que já passamos nesta estranha estadia nesse mundo. Estranha a questão de auto-amldiçoar a si próprio. Aqueles que vivem muito tempo em seu mundo interior, quase sempre criam um tipo de consciência que dialoga sempre com eles, como se fosse outra pessoa.
Sempre reflito quando vejo aqui suas palavras.

RicardoBernardo disse...

– Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo... Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é o modo subtil de transferir a confusão e a violência da vida para um plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos , do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo. O cigarro consome-se, não é?, a calma volta. Mas pode imaginar o que seja isto todas as noites, durante semanas ou meses ou anos. (...)
H.H.


----


.Ergástulo.
(para trompete e piano)

não há
palácio sem cárcere
castelo sem masmorra
convento sem clausura
fortaleza sem presídio
ou,
casa sem cave.

rb

RicardoBernardo disse...

– Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo... Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é o modo subtil de transferir a confusão e a violência da vida para um plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos , do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo. O cigarro consome-se, não é?, a calma volta. Mas pode imaginar o que seja isto todas as noites, durante semanas ou meses ou anos. (...)
H.H.


----


.Ergástulo.
(para trompete e piano)

não há
palácio sem cárcere
castelo sem masmorra
convento sem clausura
fortaleza sem presídio
ou,
casa sem cave.

rb

Vera Calvário disse...

É tramado quando nos sentimos a mais na nossa própria casa. Eu oiço Moonspell para afugentar os monstros xD e resulta! São os meus momentos de paz.
Todos nós temos pedras no caminho. Há os que se desviam, os que dão um chuto para o lado e os que tropeçam. Quando penso em ti, imagino-te o tipo de pessoa que tropeça e invejo - admiro - a forma como segues em frente. As pedras do teu caminho fizeram de ti um homem admirável.
Gostava muitíssimo de saber se uma pessoa depois de chegar onde tu chegaste, e hás-de ir mais longe com o tempo, quando vai dormir respira a sensação de dever cumprido, a sensação de se ter feito algo de notável. Sentes-te realizado?
Aquilo que fizeste da tua vida, a nível profissional, é o sonho da minha vida e sinto que não passa disso mesmo, um sonho. É um tesouro aquilo que alcançaste!

Curvo-me perante vocês, Moonspell! Felicidades!

maria m. disse...

lembro os «Demónios interiores» do Jorge Palma: «Sentei à minha mesa os meus demónios interiores/ falei-lhes com franqueza dos meus piores temores».
... difícil conviver com os nossos medos, abismos,desassossegos,... muitas vezes gostaria de poder fugir de mim.

Anônimo disse...

Vou calar a tua presença, não vou mais pensar em ti durante o dia de hoje. Nesse vazio de sossego visto o meu quimono e vou dar de beber às plantas do jardim secreto. O cheiro doce da terra humedecida refresca e devolve-me a paz aos sentidos. Deixo-me estar parada perante o alívio da paisagem limpa e organizada. Penso "que não fui eu, mas a natureza que me sustentou a mão, ela permite que cumpra a sua perfeição". Nos intervalos deste mesmo compartimento há um gato muito entretido a brincar com uma bola de papel. É a única coisa que me retira a atenção da beleza como evolui o crescimento das plantas e dos aromas por elas exaladas.

A solidão não me causa mossa, porque nem na ausência física se consegue estar verdadeiramente sozinho. Existem os espíritos bons para nos ajudar e os maus para nos fazer retroceder e atrasar o caminho por muitos atalhos... e se decidi não pensar mais em ti durante o dia de hoje é porque preciso de iluminação: fiat lux, uma grande notícia está prestes a chegar, abra o seu coração e permita que a luz o alcance neste longo e terno abraço. Até à eternidade...

Miguel disse...

Feliz aniversário, Fernando!

Peço desculpas por estar te desejando feliz aniversário por aqui, mas não vejo outro lugar para isso... Enfim... Felicidades! Parabéns!

Espero ver-te em São Paulo (17/11).

Até lá!

starfish disse...

Parabéns Fernando! :)

Desejo-te muitas felicidades, muita saúde (pois, nós queremos o nosso herói lusitano forte e saudável!) e que corra tudo bem com os teus projectos. E claro, que venham mais concertos dos Moonspell. Que seja um ano ainda melhor para ti a todos os níveis :)

Aproveito também para deixar aqui o meu obrigada. Sabes que sendo eu uma rapariga que adora escrever (às vezes, quando não tenho sono, escrevo até de madrugada) confesso que nem sempre me dediquei à poesia. Não é por não gostar, simplesmente não tinha muito jeito para escrever poemas. Até que um dia uma banda chamada Moonspell entrou na minha vida. Encontrei um poema do vocalista na net e... senti-me inspirada. Dois dias depois, escrevi um dos meus primeiros poemas. E tenho escrito poesia até agora. Se são bons? Ah, isso já não sei! Eu apenas gosto do que faço :) De certa forma, comecei a crescer como poeta. E finalmente encontrei alguns dos teus livros. Numa biblioteca. Já li o teu primeiro livro que adorei e agora ando a ler o "Feridas Essenciais".
Bom, no fundo o bichinho da poesia esteve sempre dentro de mim, apenas precisou de um empurrão para se revelar... e não podia ter escolhido melhor. Um empurrãozinho chamado Fernando Ribeiro. Até podes pensar que não fizeste nada. Se calhar não fizeste mesmo. Mas a verdade, e provavelmente já deves ter ouvido isto muitas vezes, é que a tua poesia inspira-me. Por isso... obrigada.

Por último, enquanto fã da tua banda, posso apenas dizer que adoro viver debaixo do feitiço da lua cheia :)

Moonspell = Orgulho nacional \m/

Anônimo disse...

Se não conseguires libertar os demónios interiores nunca serás feliz, são eles que te empurram para a morte, e não é isso que nós queremos porque é muito bom ter um corpo e sentir, viver tudo o que podermos enquanto a nossa alma estiver aprisionada nele, um dia chegará o momento da liberdade mas até lá temos que viver o mais intensamente que podermos aproveitando essa vivência para que nosso espirito evolua e que sejamos todos espiritos evoluidos.
Eu sei do que estou a falar. A todos até um dia.

|LeThaRGiCA| disse...

Saudações Fernando,
Desculpa a pergunta mas podes dizer-me qual o nome da música que se ouve ao ler as tuas palavras?

Continuação de um excelente trabalho, sempre

MADRUGADA... disse...

grande Fernando. dá-lhe sempre com alma.


Abraço.

madalena disse...

Onde estás? O que aconteceu? Porquê a falta? Não te deixes Fernando..

THis Me ... disse...

aquela parte do dia em que nos fixamos no tentáculo do fantasma, é quando criamos dentro de nós a coragem para respirar. largar, não é perder ou ganhar, mas o ponto entre a luz e a escuridão nunca é um momento exacto... demais para se entender o porquê das coisas e o porquê das pessoas. a libertação é uma entrega que às vezes aprisiona.

Anônimo disse...

Eu. 26 de Agosto de 1981. 14 anos. metade da minha vida. concertos de Moonspell numa cidade a que chamaram Porto. e outros. deixei de ouvir-vos na última faixa do wolfheart. 15 anos. dostoievsky. kafka. pessoa. al berto. rushdie. outros. fecham-se ciclos e vontades. fica a melomania, a cinefilia a literatura. outras nuances. sete anos de faculdade para aprender sigmund e apaixonar-me por foucault. e ficas tu fernando. e a vontade de saber.