quinta-feira, 10 de março de 2011

Cabaret Seixal e excerto do conto Exercício de Cidadania

Queria agradecer a todos quantos foram ao Seixal. Foi uma noite muito bem passada, feita de cumplicidades e ambiente. Um abraço em especial ao Charles, pelo convite e pela hospitalidade! E outro David Soares que nos falou do bem e do mal com a mestria habitual.

Este conto, juntamente com outro de nome TRVE, será parte da colecção de mitos urbanos, com a chancela Gailivro (grupo Leya), a editar em livro em meados de Maio.

O conto Exercício de Cidadania narra a história de ZP, um serial killer, que caça politicos. Não é intervenção, é ficção. Enjoy!

"ZP não chamava a atenção. Corria o pais na sua carrinha. Ficava em pensões e hotéis de três estrelas no máximo pagos pela Hidromundo (gota a gota matamos a sede do planeta). Comia na pensão e guardava sempre o cartão de visita que vinha agrafado às facturas. Cada vez que repetia uma cidade, repetia a hospedaria. Planeava o seu mapa-morte de acordo com as suas deslocações, intervalando sempre a caça com um esquema simples:

- Nunca matava na primeira visita embora observasse a vítima no seu habitat. Os trabalhos de fiscalização e de administração duravam três a quatro dias sempre. Cobria a cidade mas também os arredores.

- À segunda ou terceira visita efectivava o crime, despejando os corpos em ambientes sempre coincidentes com os desaparecimentos. Por exemplo, quem se afogasse, ficava nas margens, escondido de uma maneira que levasse cerca de dois ou três dias a encontrar. Neste âmbito inclua casas, planícies, sítios em obras, que tinham a vantagem de encerrar em si desde logo a própria história, sem grandes perguntas.

- Não deixava pistas ou então criava artificialmente vestígios que esbarrassem nas burocracias e nas perícias técnicas da Policia, que conhecia e tinha estudado e que sabia que estavam limitadas aos cortes de orçamentos tantas vezes assinados por vítimas ou candidatos a vítimas.

- Acompanhava os casos até uma certa altura, desfazendo-se depois de todos os registos que o pudessem ligar ao acontecimento. Usilva fazia exactamente o mesmo.

ZP era uma pessoa dupla. Essa qualidade permitia-lhe uma flutuação de sentimentos. O sexo e a morte era ideias rápidas e violentas. Não lhe ocupavam o tempo suficiente a ideia. Assim, mantinha-se longe da pulsão até bem perto do principio e do fim do acto. Tinha um gatilho que desligava e lhe permitia a banalidade de pensamento e de acção. Comia o bife da casa no restaurante de pensão em Alfandega e este merecia-lhe tanta consideração como o bandido que fazia as cooperativas da sua terra fecharem e os trabalhadores suicidaram-se ou se entregarem ao ócio e aos vícios, falecendo em vida. Nunca tinha comentado os seus métodos como ninguém e até Usilva sabia, apesar das insistências deste, apenas informações gerais, algumas até por via indirecta. Era como jogar as cartas. Usilva sabia que cartas tinham calhado a ZP mas durante o jogo, havia um puxão da toalha que cobria a mesa, os copos entornavam o vinho que bebiam, as garrafas de cerveja explodiam espumosas nas cartas, tudo se misturava, o jogo tinha ido até ao limite, nunca chegando ao fim. Depois de limpa a mesa, baralhavam, partiam e tornavam a dar.

Não era de poucas palavras. Nem de muitas. Não vivia na escuridão, nem na luz. Participava na área cinzenta como quem sai para dar uma volta ao parque e volta para casa sem ser visto por ninguém. Não era cruel mas sabia sê-lo perante as medidas. Não se sentia um justiceiro, nem um matador e sabia que nunca iria ser um herói. Tinha, contudo, uma ideia de justiça que lhe parecia colorir a sua vida banal e como aquele homem que vive e vai todos os dias ao café, à campa da sua mulher colocar flores, ao quiosque comprar o jornal, o bom dia à empregada da portagem, que vai dar uma volta com o cão, que compra todos os dias o pão, duas carcaças, dois integrais, até se tornar invisível nas suas acções, parte da rua como a árvore da esquina, o marco antigo do correio, as bilhas de gás atadas por correntes à porta da mercearia. O chão que se pisa sem olhar. Como o chinês, transformado no que o rodeia. Camuflagem simples, despretensiosa, aproveitando a indiferença dos rostos.

Tinham sido até agora, vinte três. No norte do pais, terreno fértil de corrupção, tinha despachado dez. Acidentes de carro, acidente de caça, queda em poço. No Sul, apenas dois até agora. Caramba, tinha crescido por lá. Enforcamentos. No centro do país, com uma área mais extensa, do litoral ao interior, os restantes. Queda de andaime em pleno dia, ataque cardíaco depois de almoço farto, afogamentos em barragens, morte súbita."

2 comentários:

Carlos disse...

Meu caro,
Aproveito mais uma vez para te agradecer a presença, a participação e o grande espírito.
Engrandeceste-nos a todos com a tua sublime presença.

Gratia plena!

Charles

Trebaruna disse...

Gostei bastante deste novo registo. Acho que é bastante promissor.
Por enquanto, só me resta aguardar o lançamento completo :)

Beijinhos